A experiência eloquente da clausura nos comove de tal maneira e poderá, certamente, desconcertar todo indivíduo que desconheça a força do Evangelho. Tenhamos a seguinte certeza: esta vocação, jamais se entenderá sem fé. Além da vocação, a fé é o elemento essencial para se viver enclausurada.
A vida em clausura é um testemunho de quem crê que Jesus Cristo basta, que ele é a alegria verdadeira, que estar com Ele compensa tudo o que há, é um verdadeiro ‘perder para ganhar’. Pessoalmente, podemos dizer: vida melhor não há. É a vida feliz do reino já começado, de quem consagra sua liberdade toda a Deus. Separa-se do mundo exterior, limita-se seu espaço de circulação, abre-se mão da convivência com familiares e amigos, procura-se o silêncio. O ambiente da clausura é uma facilitação para a vida interior, para a busca e a escuta de Deus. Abre-se para o encontro com Deus.
O silêncio do Carmelo é oracional, é o meio pelo qual dispomos a nossa alma à presença de Deus. Queremos doar a nossa atenção a Ele. “Queremos ver a Deus”, como disse Santa Teresa. Para vê-lo, ouvi-lo, enfim, nos comunicarmos com Ele, precisamos silenciar, porque é no íntimo do coração que Ele nos fala. Silenciando todas as vozes que nos chamam para fora, nos disponibilizamos para Deus que nos habita. Ouçamos a carmelita Santa Elisabeth da Trindade:
“O Criador, vendo o belo silêncio que reina em sua criatura, ao contemplá-la totalmente recolhida em sua solidão interior fica encantado com sua beleza, e a instala naquela solidão imensa, infinita, naquele lugar espaçoso cantado pelo Profeta. Este lugar é Ele mesmo: ‘Entrarei nas profundezas do poder de Deus. Falando o Senhor por seu profeta, diz: ‘Conduzi-la-ei à solidão e falar-lhe-ei ao coração’. E a alma entra nessa imensa solidão, na qual Deus se fará ouvir.” Santa Teresa também nos dá muitos incentivos para que nos exercitemos nesta atividade de silenciar o nosso interior. Ela diz: “Aquelas que desta maneira se puderem encerrar neste pequeno céu da nossa alma, onde está Aquele que o fez, e também a terra, e se acostumarem a não olhar nem estar onde se distraiam estes nossos sentidos exteriores, creiam que levam excelente caminho e que não deixarão de chegar a beber a água da fonte, porque caminham muito em pouco tempo.”
A Santa Igreja proclamou Santa Teresa Doutora e Mãe de espiritualidade. Ela nos deixou um tesouro rico em ensinamentos práticos a respeito da oração. Ninguém mais do que suas filhas carmelitas terão o encargo de conhecê-lo e vivenciá-lo: “…todas as que trazemos este hábito sagrado do Carmo somos chamadas à oração e contemplação (porque este foi nosso princípio, descendemos daqueles santos padres do Monte Carmelo, que estavam em tão grande solidão e com tanto desprezo do mundo buscavam este tesouro, esta pérola preciosa de que falamos [a contemplação].” A oração é a atividade principal da carmelita. Durante todo o dia ela busca a comunhão com Deus, tudo o que faz é ofertado através da oração em intenção pelo povo de Deus. Faz-se oração comunitária em união com toda a Santa Igreja. Participa-se da Santa missa diariamente. A capela do Santíssimo está inserida entre as celas das monjas. Vive-se em oração. Vive-se da oração. O Carmelo é todo oração.
O amor fraterno é um dos 3 elementos que Santa Teresa elenca como fundamento para a vida de oração. Prestes a iniciar os ensinamentos sobre oração, ela diz: “Antes de falar do interior, que é a oração, direi algumas coisas que são necessárias às que pretendem ir por este caminho… Alongar-me-ei em declarar somente três… uma é o amor de umas para com outras… A verdadeira perfeição consiste no amor de Deus e do próximo e quanto mais formos fiéis em guardar este duplo preceito, mais seremos perfeitas. Nossa Regra e nossas Constituições são apenas meios para o cumprir mais perfeitamente.” Em uma comunidade fundamentada no amor divino, o Senhor é o centro das recreações e conversações e as necessidades das outras irmãs devem ser colocadas antes das nossas próprias. De acordo com Santa Teresa, vivendo dentro da clausura, não deverá ser coisa muito difícil o amar-se mutuamente entre as irmãs, pois “que gente haverá tão rude que não se ganhe mútuo amor estando em contínuo trato e vivendo juntas…?”
O amor que Santa Teresa quer para suas filhas é um amor que comporta a renúncia de si mesmo, um amor sobrenatural. No Carmelo há muitas oportunidades para ‘provar’ o amor, como diria Santa Teresinha, pois “a caridade não deve ficar encerrada no fundo do coração.” E o Evangelho nos fez conhecer que o sinal mais certo para sabermos se trazemos em nós o amor divino é a prática do amor ao próximo.
A rica espiritualidade carmelita, vivida e transmitida há tantos séculos pelos antigos homens e mulheres de oração, pode ser entendida de muitas formas. Cada um dos santos carmelitas a expressou de um modo, conforme sua vivência própria. A espiritualidade do Carmelo vislumbra uma subida, a subida do Monte Carmelo. A partir do desprendimento de tudo o que não é Deus, busca-se a união com Ele, até que a nossa alma seja como um jardim das delícias de Deus, a exemplo de Maria Santíssima. Santa Teresa utiliza a imagem de um horto ou jardim e diz que nossa alma é como esse jardim e nossa missão é cultivá-lo, cuidar dele, para que o Senhor da horta venha passear e se recrear. As virtudes da alma que começam a aparecer são como as flores bem perfumadas que agradam ao ‘Senhor da horta’. A Virgem Santíssima é o ideal sublime de mulher de oração. Sua alma é o jardim rico em quantidade de flores, tão belas e delicadas e repleto de perfumes sublimes. Toda a vida carmelita está fundamentada sobre a oração, que é o que possibilita a subida de que falamos. A oração para a carmelita é um entreter-se com Deus, exercício de amizade com ele, atividade principal de sua vida na qual deve perseverar com ‘grande e determinada determinação’ até que chegue a estar “feita uma mesma coisa com Ele em união.”
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